
Sofrimento de formação. A travessia de uma garota chatinha e desajeitada não só para recuperar os pais, mas para reafirmar seu amor. E assim como em "O Serviço de Entregas da Kiki (1989)", Miyazaki está interessado centralmente na questão do trabalho. Ambos os filmes são, em essência, obras sobre trabalho. Mas sobre diferentes regimes, pode-se dizer — na década de distância que os separa figuram Bush pai, Bush filho, a bolha japonesa e, mais importante, não figura o muro de Berlim. Conforme preconizou no filme de 89, o dirigível "espírito da liberdade", sobre a influência dos ventos quentes de verão, colide e se esborracha em uma torre de relógio. Assim sendo, diferente do desenho da bruxinha e sua empregadora gentil, o trabalho em "As viagens de Chihiro (2001)" se revela não mais como uma forma digna de se relacionar com o mundo, em que se parte de sua individualidade e o realiza como expressão de si, edificante. Ao contrário, aqui o trabalho emerge como uma necessidade urgente e impessoal, integrando uma estrutura mercadológica e meio cruel. E é nesse processo da labuta que a menina desajeitada, mimada e enroladinha acaba se sensibilizando quanto ao mundo à sua volta. Por intermédio vital das pessoas ao seu redor, que, mesmo num contexto sofrido daqueles, dirigem a ela palavras de orientação e candura, ou, se não palavras, gestos. Quando ela soluciona a questão do espírito do rio e a patroa agradece pela grana abundante que ele deixou para trás, o cerne da situação não está no trabalho exercido, ou mesmo na relação trabalhista estabelecida, mas sim nessa proatividade adquirida de Chihiro, misturada com sua boa intenção. É dessa junção que se pode extrair o valor edificante do trabalho, a despeito de sua ideologização, de seu caráter de mercado. Ela pode ser desajeitada e render pouco, mas tem força de vontade e o coração no lugar. Mas o dinheiro, é claro, fica todo com a patroa.
Já a travessia de trem para o outro lado do reino é das coisas mais bonitas que eu vi. A forma que se evoca o silêncio, o rio Sanzu, as paisagens inacreditáveis.. imagens desconhecidas e cheias de memória. A densidade do mundo através de uma janela, ao que ela vê passar sentadinha, enquanto o sol se põe e as crianças dormem. E esperando do outro lado uma bruxa tão doce.. que, inclusive, acaba rememorando o espírito virtuoso do trabalho em Kiki: uma tarefa manual e espiritual, que evidencia a natureza divina da fisicalidade. O laço de prender cabelo que a bruxa faz com a ajuda de seus amigos, em linha e agulha — ele vai te proteger, pois não usamos magia.
E ao fim desse exercício árduo e fantástico de amor, ela sabe que os pais não estão entre os porcos. É natural. Foi tudo por eles.

"Sentimentos são só uma fase, só um tipo de doença mental"
Particularmente, eu gostei bastante da série. ela tem um senso de impermanência, de pouco compromisso com a convenção que me atrai muito - e atrair é bem a palavra, veria quantas mais temporadas tivessem se adaptassem. dá pra entender o fenômeno que foi. bem verdade que traz muitos tropos de manual, às vezes excessivamente impessoais e apelativos, além de uns maus episódios, mas o que se faz aqui não se faz em quase nenhum análogo de massa hoje. brevemente, dois episódios me vêm à cabeça: o filme pro festival escolar e a história de detetive na ilha deserta. o primeiro como uma comédia de forças muito sinceras e artesanais (a "edição" daquele curta é perfeita de cabo a rabo), a segunda como um drama de gênero muito curioso, capaz de construir um cenário realmente instigante no passo de um truque de mágica, da performance à resolução (você já sabia que não era pra valer, mas não dá pra negar que foi ardiloso enquanto durou), partindo de convenções de gênero claras e chegando a uma conclusão que à primeira vista pode parecer pacificadora, concretizada em um estalar de dedos, mas que na verdade apenas reforça essa natureza empática se criando em tempo real na psique de Haruhi. capaz de colocar todo mundo naquela situação horrível pra satisfazer suas vontades juvenis, como também de trazer os mortos de volta à vida ao fim da brincadeira. com a inocência de uma criança arrependida.
no fim das contas, o desenho se permite. e não é só o endless 8, muita coisa que ele entrega vai contra a concepção geral de uma comunidade animes, por assim dizer. do que 'funciona' e do que 'não funciona'. olhando ao redor, é difícil negar que o otaku médio tende a ser bastante normativo, e o que estabelece boa parte desses critérios é uma familiaridade original, o conhecimento prévio do bom e do ruim. que me surpreenda, mas dentro do razoável,, seria algo mais ou menos assim seu mantra. enquanto que o cinismo e o non-sense daqui foram bem recebidos e assimilados em várias produções posteriores, a imperatividade do tempo que o desenho frequentemente impõe, em linhas gerais, não foi e não é bem quista. é chato, ou não entretém. acho uma pena, com um pouco mais de paciência acredito que se chega a lugares bem interessantes.
dos meus episódios favoritos é aquele em que o kyon vai buscar um aquecedor na lojinha afastada. intercalam na tela a peregrinação solitária do garoto, a vista silenciosa de uma janela onde haruhi aparece fazendo maldades com asahina, e a nagito na sede da brigada, lendo seu livro sozinha enquanto vozes ao longe do que parece ser um clube de teatro à acompanham. toda a riqueza das situações aqui se constitui formalmente, por escolhas de linguagem - espaciais, sonoras, estilísticas.. poderia se dizer, como dizem os detratores, que nada acontece. mas acho que falta, na ausência de palavra menos paternalista, uma sensibilidade, um apreço pelo processo a despeito de um objetivo. ao fim, o aquecedor não ocupa apenas uma função pragmática, de movimentar os personagens ao ser buscado ou de aquecer. assim que clama seu espaço na sede da sos-dan ele se torna (mais) um totem, um objeto vivo que carrega consigo não apenas memórias, mas um propósito, um valor próprio que não tem a ver com sua materialidade e não diz respeito apenas ao passado, mas ao presente, sobre como as coisas se tornaram o que são. sem etês ou espers dessa vez. um perfeito último episódio não intencional.

“If it cannot break its egg's shell, a chick will die without being born. We are the chick. The world is our egg. If we don't crack the world's shell, we will die without being born.”
"i won't know myself/ but i'll know you"
[...]
o poder purgatório da encenação. lá no alto, uma princesa confinada de ponta cabeça. perfurada por todas espadas do mundo, redimindo os pecados dos ressentidos. imitando uma bruxa para salvar o príncipe de mentira. condenada para sempre a ser mulher. enquanto isso, abaixo do castelo, uma revolução esquisita está em curso. Utena é sua estrela. é uma bishoujo, e é um príncipe. com uniforme de garoto e postura de muleque. tão forte quanto sua performance, invencível enquanto cultivar no peito a nobreza que carregava desde pequena, desde o caixão. uma força imemorial, mas que persiste.
quando criança, recém órfã e confrontada pela primeira vez com a efemeridade da vida, Utena se enclausurou num mausoléu. só saia de lá sob uma condição: que a mostrassem algo eterno. e o príncipe, um primeiro príncipe, a encontra, e a mostra. agora frente ao sacrifício de Anthy, Utena se sensibiliza profundamente. não pela natureza do seu martírio, muito pelo contrário, o que a move para fora do caixão é a urgência de tirar aquela mulher da cruz. essa empatia visceral, raiz da sua força e de sua revolução. a inconformidade com o destino feminino e o desejo transformador de estar ao lado dela.
Utena cresce, e já não se recorda bem do evento. a revelação está turva, mas sua essência permanece no coração. não à toa toma Anthy para si de novo, com o desejo de liberta-la. e embarca com tudo nessa grande tramoia perversa e violenta em curso, perdidamente inocente a principio. no meio do caminho, uma série de repetições, como rituais. adentrar o jardim, retirar a espada, destruir a rosa. se deitar todas as noites ao lado da pessoa amada, subir todos os dias a torre recitando um mote. herman hesse, em conjuntinho, fazendo pose. cada um com seus significados funcionais e sugestivos. se comparado com o adolescence of utena, aqui os espaços são mais físicos e menos abstratos. há um esforço em integra-los à lógica das instituições que povoam aquele mundinho: os dormitórios, o conselho estudantil, a arena, a sede da rosa negra - espaços familiares, mas em constante transformação, física e simbólica.
e no fim, tudo que acontece só acontece por intermédio da forma - na transformação dos espaços, nas pétalas que brotam do ar, no movimento dos cabelos, no teatro das sombras, no ronco do motor, nos olhos, nos feixes de luz, nas visões barrocas, nas reações sutis dos corpos, nas cacofonias, espaços amplos, enquadramentos estreitos e revelações fugazes - partes de uma só composição, revelando a realidade e a enformando cenicamente em consonância com o sentimento, pra além de qualquer limite rígido. o mundo realmente como um palco. um castelo de mentira e um sonho de verdade.
and someday, together, we'll shine.

o mistério latente no olho de um coelho. em linhas gerais, essa é a história de um garoto em uma escola. escola que, aos poucos, se revela um verdadeiro ecossistema, um ambiente vivo, suscetível a ordens e desordens. respirando por seus poros - por suas árvores, hortas, pela voz de suas crianças. ora mundana, ora mística, mas sempre sugestiva, dotada de significados. seja nos espaços comuns em que a chuva cai ou em seus andares secretos. e sozinho nessa escola está o garoto, um sujeitinho muito particular, atento a essas minúcias do seu entorno. dotado de uma sensibilidade rara no trato com tudo que não é humano, e incapaz de se integrar minimamente a sua classe. ao contrário, enxerga nesses espaços seres e estruturas que ninguém mais vê, e é a partir deles que se relaciona com o mundo. já no início da história o rapaz se encontra em crise. ele anda percebendo um movimento atípico desses entes invisíveis, um movimento que o perturba na medida que o tira de uma posição central daquele mundinho. estão o deixando de lado e se tornando signos cada vez mais sinistros. é desse ponto que partimos.
aterrorizado por Eles e descrente com o lado de lá, tachibana se vê entre duas figuras importantes. susuki, um quase amigo que não o entende bem, mas gosta dele. e sasaki, ou qi, seu similar mais velho e bem versado, que usa das palavras para Explicar. cada um representa uma alternativa para o peculiar tachibana, apontando caminhos distintos para se relacionar com o mundo de que é alienado. com o primeiro, estabelece uma conexão sentimental, entre dois sujeitos. afinados não por serem iguais - susuki não é um excepcional como tachibana, "meu boletim é cheio de bês" ele repete. o elo que une um ao outro é também o que une os dois ao mundo: uma preocupação com as flores, com o zelador, com o som da gaita, com o espaço da escola, com a sugestão - "quando eu olho pros aviões, sempre me pergunto de qual lugar eles estão vindo". observando tachibana, susuki também percebe o que ninguém mais percebeu. Já qi, veterano excêntrico e solitário, olha para o jovem tachibana e busca esclarecer, explica-lo o que se passa em seus sentidos. desencantar essas figuras que povoam seu mundinho. a escola é sua jaula, superstar sua vontade, os seres de lá seus medos. e suas visões, freud explica. no meio disso está nosso garoto, já para além de uma dúvida radical. “tudo que você escuta com os ouvidos é mentira, tudo que você vê com os olhos não passa de ilusão”. buscando uma base perdida. uma porta preta no fim do escuro.
há um tema recorrente na história, repetido pelos adultos, de que os mais velhos devem ser responsáveis, se portar bem, como figuras exemplares, posto que os mais novos se espelhariam neles. que é essencial para a manutenção da ordem. em um momento, frente a um professor desnorteado que perdera o controle de sua turma, o vice-diretor sugere que o real perigo não são as crianças sós como tachibana, relegadas ao desamparo, mas sim as que se unem. noutro ponto, uma professora confidencia desgostosa ao jardineiro que as crianças de hoje, seus alunos, as parecem alienígenas. naturalmente, a professora já foi criança. frequentou a escola, admirou seus ídolos e viveu seus dramas. e o tempo passou. ora, esse desconforto, essa alienação que a professora sente ao tratar com seus alunos não deixa de ser, em última instancia, uma questão pessoal sua. um reflexo da alienação de sua própria infância. conforme coloca zaza, a única distância possível da infância é o seu esquecimento. e ela se esqueceu, está podre e seu cérebro ficou duro que nem pedra. não consegue compreender os pequenos. e, como uma boa reacionária, opera antes de tudo sobre um instinto de autopreservação. como viemos parar aqui, se pergunta, e se antagoniza às crianças, assim como o vice-diretor. busca o controle. tornou-se covarde. é isso que tachibana teme. em contraste à figura do gantz, o zelador velhinho, de carne e osso, observador nato. eventualmente, ele revela a susuki que tachibana não é o primeiro de seu tipo. ao que parece, esses solitários - hipersensíveis e profundamente imaginativos - são partes essenciais da natureza daquele microcosmo. surgindo um após o outro, em diferentes contextos, tempos e espaços, independentemente. e falando das mesmas coisas, vendo o que ninguém mais vê. interessados na ordem de seu espaço. solitários, mas profundamente empáticos. eventualmente, se esquecem do que viram. mas surgem outros. como as flores que florescem ao acaso. e que não falham em ter consigo a verdade que uma flor tem ao florescer.

“Tudo é do mato [...] A cera é a abelha que faz, a madeira é do mato... Tudo é da natureza do mundo.” — Conceição dos Bugres, 1979
(...)
Pensando em retrospecto todo o caminho até aqui, eu realmente queria que o Hideaki Anno fosse feliz. Desde o lançamento da série original em 95, com seus conhecidos percalços psíquicos e orçamentários, até a virulência das reações aos episódios finais e sua contundente assimilação no filme de 97— Evangelion nunca assumiu um caráter homogêneo. Se em princípio havia uma intenção mais ou menos bem definida, dando sequência a uma tradição romântico-melodramática do Mecha com que o próprio Anno trabalhou anteriormente em Macross, logo essas intenções se perdem em meio ao turbilhão de estímulos e condições que tomaram de assalto a produção e o sujeito. Dez anos depois, o autor se volta novamente à Eva. Dá-se início ao que seria (à princípio) uma releitura da série original, dessa vez no formato de filmes, e, agora sobre a tutela do estúdio Khara, sem os contratempos Gainax-escos. A mudança na mentalidade é evidente: sobre a nova forma, o anime assume um aspecto muito mais objetivo, centrando-se sobre a concisão de certos momentos chave enquanto elipsa os apelos mais íntimos e sentimentais em prol de uma abordagem mais sóbria, processual de certa forma, em que as tragédias e os eventos se apresentam mais contidos. Sobretudo nos dois primeiros longas, que ainda correspondem a uma parte palpável da série original. Já no terceiro mas principalmente no quarto e último, a abordagem e a história, cortado o elo material com a série, enveredam para um caminho particular. A imagem final de Evangelion: 3.0 You Can (Not) Redo é fundamental: três crianças sozinhas vagando num deserto vermelho do tamanho do mundo, uma vivida para muito além de seus anos, com uma sabedoria que é desconhecida por nós; outra nascida ontem, quase que literalmente. ainda virgem do mundo. e a outra é o Shinji, nosso infeliz favorito, mais uma vez em uma condição inabalável de letargia absoluta. Tal qual na série de 95, tal qual no filme de 97— ele é o mesmo, o fim é o mesmo. Todos os exercícios intensivos de autoconhecimento e psicanalise, tudo retornando a um mesmo ponto, de uma deficiência fundamental. O que culmina finalmente nesse daqui, Thrice Upon a Time, a terceira tentativa. Anno dá o passo final, para trás. No fim das contas, a solução tem de ser espiritual.
(...)
Há a quebra de um ciclo vicioso em dois planos, um metafísico e outro familiar, que, no fundo, formam um só. Desde sempre Shinji esteve condenado a repetir os erros do pai. A vida do velho se sobrepõe a dele como uma herança maldita, uma longa linha que descende do próprio pecado original e se manifesta na rede de relações e dependências que sempre moldaram seu mundo (seja na série, seja no the end). A diferença fundamental aqui é o estabelecimento de um plano de afetos para além do indivíduo, a revelação de uma sensibilidade inacessível ao olhar solitário, aceitando a impotência da razão pura. A verdade se constituindo não apenas das insolucionáveis relações humanas, mas na experiência comunitária do trabalho, na aceitação dengosa de um gato, ou no acolhimento caloroso da vila, que recebe sem rostos, independente do seu eu empírico ou dos rabiscos junguianos dentro de ti— que podem até ser o que você é, mas só um pouquinho. Não se cabe em um individuo, você tem em si a mesma natureza das coisas que não são uma, a natureza comum de todas as coisas. A jornada trilhada pela 4ª Rei naquela comunidade consegue intuir do zero uma beleza sobrenatural, uma sintonia transcendente com a terra, com os rios, com a colheita, com os ritos, com as crianças— todas partes fundamentais da crença coletiva que sedimenta aquelas vidas. Bem como nas esculturas de Conceição da Silva, o que se busca é a harmonia entre a ação e a natureza, em que o ímpeto transformador não deforma, mas realça a singularidade das coisas. Um mundo vivo, que se relaciona e constitui sentido junto ao indivíduo. Quando perguntada sobre a produção de seus Bugres, Conceição afirmava: "Faço para ter a companhia deles". A beleza que aqui surge na descoberta do mundano é a mesma esculpida pela indígena do Rio Grande do Sul. Ambas raízes de um mesmo tronco. "A madeira é sabia". E é a partir dessa perspectiva inédita até então que, sobre o intermédio da Rei, nosso garoto problema vai se reerguer. Evangelion de esquerda, ou quando o Anno resolveu dar uma de Miyakazi até as últimas consequências (e no fim, não é que o cara tinha mesmo aquele 'força extraordinária para a candura' que o professor uma vez o negou..). Assim sendo, há novamente a recusa da instrumentalização, agora por uma terceira via. Se antes o mote era o medo de se tornar um com o nada, agora a solução é propositiva. Não se tornar um, mas acender no peito o que te torna a parte do todo. e se entender com seu pai. Não num ato de amor transcendente, mas na prevalência da vontade superior. Ele não perde a Yui como Gendo, ele herda a Rei. essa é a inflexão. Faltou ao primeiro a sensibilidade do mundo. Inclusive, essa herdança da vontade só se faz possível por conta da composição realmente fantástica daquele adeus da Ayanami.. cada expressão, cada gesto que surge naquele espaço carrega sobre sua singeleza o peso de tudo, é a culminação cênica dessa solenidade ilimitada do mundano. Das maiores coisas já realizadas com som e imagem. E para Evangelion, não poderia haver outro fim que não as costas de um Shinji partindo escadaria acima, sobre as próprias pernas.
e de mãozinhas dadas..
:')``

Acho que a experiência do primeiro episódio é bem importante. Desde a primeira olhadela já dá pra sentir um fascínio na forma, uma curiosidade solene do desenho por si. Da imagem pelo conteúdo. Mas a imagem não é conteúdo? É, lógico. E aqui ele vai partir justamente dessa dissonância- da pouca ou má compreensão do incerto que se vê, que se ouve- pra logo se fechar junto ao primeiro episódio, naquele salto transcendente. Uma resolução de vontade, em que o físico não existe em função de você entender ou deixar de entender. Agora pode abrindo o segundo ep que o lance não é mais esse, agora é outra coisa. E assim vai. Uma potência de poucos limites, verdadeiramente criadora. O que escrevi mais pra baixo é uma nota enviesada e pouco lapidada de um momento, dessa vez mais ao fim. Entre esses dois pontos tem, realmente, um mundo. Bem acessível inclusive..! A única coisa que se pede é um pouquinho de passividade. Carência crônica entre uma mlkadinha aí, é verdade. Mas você não é da mlkadinha, certo..
E, antes de tudo, uma animação. O cara entendeu a expansividade da mídia, a futilidade do formato e o não compromisso com outras coisas que não a própria animação. Não é apenas amor formal, imbuído na performance de quem ama o que faz. É amor de quem sabe, e por isso ama.
Agora. 'Por que justamente o diretor é Deus? É coincidência. aconteceu de ele ser o diretor. Por que, então, nós? Não tem porquê. nada tem.' Uma ficção cientifica que não se estende sobre burocracias, que mantém viva nas lacunas a potencia da imaginação, em um contexto tão propenso a estimula-la, e que, por isso, é bonita. uma ficção sobretudo humana. Se há uma noção maior, em um primeiro momento, é a de que "Aquele(s) mundo(s)" são em certa medida uma continuação do deles, sempre fruto de uma vontade terceira. Viver como uma perspectiva delimitada, como uma performance inevitável sobre sofrer menos. Um encaixe. Seja lá ou aqui, morre quem não oferece resistência ao mundo, quem aceita a dor e cessa o sofrimento. Aqui, viver é sofrer. Quanto mais se vive, mais se dilui o significado individual e mais homogêneas as coisas se tornam. Tudo se transforma na direção de "um buraco aberto e torto". A vida é um exercício vão. Mas tem aquela luz que nunca se apaga. Novamente, a vida é um exercício vão - mas é justamente nessa incompletude que se faz tão bonita. é bonita porque é uma. E, vez ou outra, algo acontece. Se busca compreender a natureza de cada mundo e aprender a partir dela, mas nunca como uma interação definitiva. A única coisa definitiva é a vontade.
Voltando àquele mundo. Como resistir diante de Deus? Como escapar de um ser que tem o passado, o presente e o futuro em si? Trazendo a tona o bom velhinho para elucidar:
Mas quando o tempo é suspenso, a vida infindável e todos os momentos pertencem a um, haveria, então, condições suficientes para a conclusão individual da teleologia dessa História? Eis o isekai como elemento fundamental para trabalhar a possibilidade. Trajetos absolutamente substantivos mas sem a mínima linearidade ou compromisso com uma sistematização definitiva. Fracasso após fracasso, se delimita um esboço de conclusão. A única forma de viver pra vencer o destino: a liberdade de escolher a impotência em face do mundo. Um mundo que é seu, inconquistável. Sempre sobre o espectro dessa luz alheia, própria e incerta, a que tem de sempre ser seguida. E que não impede aquela última imagem arrasadora da vidinha miserável pós-fantástica. Não se fecha com a resolução de uma promessa, não é possível. Nem necessário.
Our lives are only beginning. What lies ahead will take just a little longer.