
A prolixidade e o esclarecimento extremo.
A alegoria como forma de dominação e restrição.
Shiva = Mon, abrangendo a interpretação "Übermensch''.
Os primeiros volumes são muito bons, mas em grande parte de sua extensão — sobretudo a partir do volume 13 — torna-se excessivamente autoexplicativo e redundante. Refiro-me, em particular, à forma como o autor procura transmitir sua mensagem por meio dos personagens, dos acontecimentos e daquilo que eles representam. Nesse processo, recorre a ''alegorias'' diretas, máximas soltas e diálogos expositivos que, ao meu ver, comprometem o valor artístico da obra. A impressão transmitida é a de que o autor, ansioso por comunicar determinada mensagem, acaba subordinando seus próprios protagonistas, até mesmo os quadros, a essa exposição, colocando-os em segundo plano como impacto narrativo e linguístico visual.
A partir de certo ponto, os personagens deixam de ser sujeitos dramáticos, viram portadores de tese e a narrativa perde autonomia para se tornar veículo de discurso.
Consequentemente, o leitor não encontra espaço efetivo para interpretação: tudo é oferecido de maneira demasiadamente explícita, já previamente mastigado. Assim, o teor simbólico da narrativa se esvazia. O que se percebe é uma desconfiança, por parte de Arai, no poder expressivo de certa sugestividade imagética e alusiva da imagem, sendo assim, conduzindo a trama, por meio dos quadros, usando aqueles artifícios ditos anteriormente. Preferindo recorrer insistentemente, em grande parte, a um didatismo.
Para mim, o exemplo mais claro disso seria, descrito no próprio mangá, a associação do Mon com Shiva, sendo ele uma alegoria direta desse deus. Logo, as próprias fases do Mon no mangá se dar em paralelo com Shiva, sendo estas: A fase Rudra, a perda de Sati, a fase Mahadev em Samadhi, encerrando-se com o Mahapralaya e Srishti.
Obs: essa sequência não fazem parte de um único "conto" linear, mas estão espalhados por diversos textos chamados Puranas.
1.Fase Rudra (A Divindade Primal e Selvagem):
No Mito: Rudra é a manifestação arcaica de Shiva, o "Uivador". É uma força da natureza imprevisível, associada ao isolamento nas florestas, ao medo e à destruição bruta. Não segue as leis sociais dos homens ou dos outros deuses.
2.A Perda de Sati (O Choque da Mortalidade e do Apego):
No Mito: Sati é a primeira esposa de Shiva. Sua morte em um sacrifício ritual desperta em Shiva uma fúria destrutiva incontrolável (o frenesi de Vira Bhadra), seguida por um luto profundo onde ele carrega seu corpo pelo universo. É o momento em que a divindade experimenta a dor da separação.
Maria representa Sati, a ponto delas duas terem diversas similaridades e cumprirem o papel a respeito da "humanização" do seu cônjuge.
3.Fase Mahadev em Samadhi (O Estado Contemplativo):
No Mito: Após o luto e a fúria, Shiva se retira para as montanhas. Ele entra em Samadhi (equilíbrio profundo), tornando-se Mahadev, o Grande Deus. Ele deixa de ser o destruidor ativo para se tornar a consciência imóvel que apenas observa o fluxo da existência, transcendendo emoções e o ego.
Obs: a primeira aparição de Mon nesse estado, no mangá, se dar justamente nas montanhas.

4.Mahapralaya (A Dissolução Final) e Srishti (A Emanação de um Novo Ciclo):
No Mito (A Dissolução Final) : É o momento em que Shiva executa a dissolução total do universo. Não é um ato de maldade, mas o fechamento necessário de um ciclo de tempo (Kalpa) para que a matéria retorne ao seu estado primordial de energia e vácuo.
(A Emanação de um Novo Ciclo): Após a dissolução total, o universo não permanece no nada; ele emerge novamente em uma nova criação (Srishti). É o reinício do ciclo cósmico, purificado pela destruição anterior.
Transformação e Renovação: A destruição realizada por Shiva não é um fim absoluto, mas uma parte necessária do ciclo eterno, que abre caminho para uma nova criação (feita por Brahma) e renovação. É um processo de transformação que dissolve a ignorância e a ilusão.
O que me fascina neste painel — sobretudo no enquadramento em torno de Mon — é o fato de que, em uma das raras ocasiões da obra, a minha crítica ao Arai parece suspensa. Aqui, o autor consegue condensar a natureza do personagem e o estado que ele alcança em um único enquadramento, sem recorrer a algo esclarecedor.
Devemos notar, em como Mon está contido no cenário, sem se impor sobre a paisagem ou se destoar dela. Pelo contrário: sua figura se integra ao ambiente a ponto de quase não haver contraste visual, como se estivesse dissolvido na natureza que o circunda, estando conectado a ela. Essa composição sugere uma dissolução do Mon no todo ou, no mínimo, uma continuidade entre ele e o mundo. Sua silhueta quase se perdendo com o branco da paisagem.
Nesse momento, Mon já não se afirma como algo isolado, mas como parte — tendo ultrapassado o ego e alcançado um estado de unidade com o mundo. Trata-se de um dos raros instantes em The World Is Mine em que Arai parece abdicar de tentar explicar, sem recorrer a algo mais direto e, simplesmente mostrando, sugerindo, confiando plenamente na sensibilidade do leitor. (Independente se não houvesse aqueles balões).
Não podemos negar há riqueza de TWIM, mas meu ponto é como o autor a expressa, neste caso, dizendo literalmente que Mon ''é'' Shiva, ou seja, caindo, como mencionado, em uma alegoria direta, consequentemente colocando uma ''etiqueta'' e achatando o personagem. A profundidade é sacrificada em troca de clareza intelectual. Ele deixa de ser um "abismo" para se tornar uma "equação" que o autor quer que você resolva à sua maneira. Enquanto o símbolo é um "mistério" que nunca se esgota.
