
Aspectos culturais, ditados ou não por regras sociais implicitamente impostas, acabam gerando peculiaridades em todos os povos, assim quando analisados pela perspectiva de indivíduos externos àquele grupo social, acabam suscitando uma percepção distorcida dos costumes, gerando análises tais como esta, que estou prestes a redigir.
Sou indubitavelmente um admirador da cultura japonesa, não me limitando a consumir somente animes e mangás, mas obras culturais de maneira geral daquele país, todavia, conflitos sobre a perspectiva de mundo e invariavelmente de opinião, acabam eclodindo ao consumir obras destinadas especificamente a uma casta seleta de indivíduos (público alvo), razão pela qual, passei algumas horas pesquisando a terminologia e razões por trás da “prostração” nominada como “dogeza” (土下座).
Antes de adentrar a análise da obra cujo intitula a presente “resenha”, faz-se necessário, para os que não são conhecedores, explicar o que é o famigerado termo supracitado, sendo de conhecimento notório, para todo cidadão médio, que a população nipônica usa costumeiramente reverências em arco, comumente chamadas de “ojigi” (お辞儀).
Apesar de não existir consenso sobre a origem de tal costume, acredita-se que
aludida reverência, começou a ser utilizada durante os períodos Asuka e Nara (538-794 d.C) com a inserção do budismo chinês no território japonês.
Dentro deste costume, existem diferentes tipos de “arcos”, destinados a mostrar respeito, gratidão ou perdão, estando diretamente atrelados ao ângulo em que a pessoa se curva e a profundidade do sentimento exarado pelo gesto, o qual se demonstra ao interlocutor por meio da inclinação do tronco e cabeça.
Dos mais variados tipos de reverência a “dogeza” (土下座) é a mais profunda e impactante, sendo raramente utilizada, cabendo em situações extremas, como quando um erro cometido leva a uma condição irreparável (podendo também ser utilizada como súplica), consistindo na pessoa ficar de joelhos, colocando o rosto e mãos no chão.
Após essa breve introdução, adentro a obra em questão “Dogeza de Tanondemita”, e os motivos que me levaram a pesquisa terminológica da reverência que intitula o anime/mangá.
A premissa do anime é simples, um interlocutor cuja face não é revelada, mas que tece a perspectiva da visualização (1ª pessoa), interage com garotas, prostrando-se em “dogeza”, suplicando por atos que consumariam sua lascívia.
Todos os episódios possuem duração média de 3’30”, quebrando diversas vezes a 4ª parede, como se todo o anime não estivesse de fato acontecendo no mundo ficcional, mas sim seguindo um script dentro do mundo real, onde as garotas que tomam grande parte das cenas, atuam como atrizes contratadas para realizar as cenas de uma espécie de show.
Assim, o protagonista encabeça uma série de súplicas, solicitando por exemplo, que as interlocutoras mostrem partes do corpo ou peças de roupa (sim ele quer ver as calcinhas), gerando diversos diálogos sem sentido ou bizarros, que beiram no mínimo a importunação sexual.

Fragmento retirado do EP.3, sim a censura é “dogeza.gif”, abaixando e levantando a cabeça incessantemente.
Tal situação além de desconfortável, gera uma paralaxe entre o real significado do termo e sua aplicação, no episódio acima o contexto dá a entender que após a súplica a garota estava compelida a saciar a solicitação, em que pese ter se mostrado diversas vezes contra a consumação do ato.
Minha crítica, e ao meu ver a problemática com alguns temas e situações demonstradas em animes, se dá pela transmissão de uma imagem errada ou no mínimo desvirtuada dos costumes/realidade, gerando aos espectadores, principalmente aos ocidentais, uma imagem inescrupulosa de ações ou manifestações, que não se concretizam no plano fático, trivializando atos que realmente possuem importância no trato social.
Como cereja do bolo, a obra, a cada episódio, introduz uma nova personagem, cuja possui um arquétipo de personalidade diferente, tsundere, undere e até mesmo uma yandere no 12º episódio.

Não me admiraria ver uma segunda temporada desse anime ser anunciada, o baixo custo de produção, atrelado a um tema altamente apelativo, geralmente dá bons frutos (monetariamente falando).
Como minhas análises geralmente são imprecisas, e eu dou notas que se descolam do merecimento fático da obra, atribuirei nota 6, pois creio que nem os produtores do anime o levaram a sério.
Se gostam de temas apelativos, sem uma construção de personagens, apenas traços de personalidade lançados a esmo, cumulados com acepções culturais facilmente desvirtuadas, recomendo a obra.
PS: Caso tenha escrito alguma bobagem releve, não estou escrevendo um artigo científico, mas uma resenha de um anime ecchi, em que o nome das personagens literalmente aparece em um “card”, junto com seu peso, altura e tipagem sanguínea.