
Spoilers a seguir.
Acho que para falar sobre This Monster Wants to Eat Me é importante mencionar o contexto em que ele estreou, e como isso pode ter mexido com as minhas expectativas ao assisti-lo. Eu estou tentando descobrir o quanto do meu "não aproveitamento" (sendo bem gentil) da obra veio de problemas que criei e do quanto veio pelo próprio anime, e acho que é por isso que estou escrevendo esse texto.
Watashi wo Tabetai, Hitodenashi veio na temporada final de 2025. Eu nunca havia ouvido falar do mangá, e descobri o anime pelo twitter, que estavam o chamando de "monster yuri" e "The Summer Hikaru Died só que yuri". Acho que é importante fazer essa correlação com Hikaru, que foi um anime da temporada anterior e que gostei bastante. Eu amo histórias de romance desvirtuosas, que tratam do proibido, o sujo, tóxico e que machuca. Hikaru trata de tudo isso de forma majestosa, com comentários queer misturados numa narrativa folclórica de lendas e espíritos. Mas isso não é uma review de Hikaru, então não vamos ficar falando sobre isso.
Eu só queria destacar que, meu pensamento ao entrar nesse anime é que seria "algo semelhante", só que com garotas. Claro, aqui o monstro é uma sereia e não... (assistam Hikaru). E aqui temos uma suicida e a sereia que promete comê-la. E claro, o "tabetai" de comer só tem implicâncias sexuais em português, não no inglês ou japonês (eu acho). Mas mesmo assim, por ser um "yuri" envolvendo uma humana e um monstro, eu esperava uma narrativa que explorasse esses temas.
E o que recebi... não foi isso. Não exatamente.
O grande ponto de Watatabe, e que o difere do que eu pensava na minha mente, é que ele acaba sendo uma história sobre trauma, luto e como viver após tudo ter sido tirado de ti. Mesmo que existam sim cenas que tentam buscar esse lado do "horror", ele nunca tenta levar para sei lá... um horror erótico? E isso ficou mais claro ainda para mim na cena do beijo, que nem sequer foi mostrada. Então eu não acho que seja justo julgar uma história pelo o que ela não tenta ser, só porque eu acho que seria legal se ela fosse assim.
Então como fica esse anime, julgando-o pelo o que ele realmente é?
E sinceramente, não é nada de mais.
Watatabe tem uma forma bem padrão dos animes, nada aqui foge do comum ou tenta ser inovador. É um arroz com feijão comum para quem já está acostumado a assistir vários animes: tem as cenas de comédia que as personagens ficam chibi, enquadramentos e iluminações em momentos dramáticos para tentar dar um enfoque, uma trilha sonora boa, etc. O que não é um problema, mas para alguém que já assistiu tantos animes com direção e storyboards extremamente criativos, não é nada de chamar atenção. E o que sobra que poderia ser interessante é o roteiro, certo? Pena que ele também não é nada de mais.
Eu vou confessar que essa ideia de "uma garota que quer morrer" e "o monstro que vai ajudar a matá-la" é extremamente interessante e eu vou ir atrás de outras histórias que fazem algo assim, mas o desenvolvimento aqui parece não se decidir no que quer fazer. Claro, existe a reviravolta de que a Shiori nunca teve a intenção de comer a Hinako, e a história acaba se tornando "como salvar a garota suicida". O problema nasce do ponto em que nunca sequer nos importamos com a Hinako, porque ela não é uma personagem.
A Hinako é uma ferramenta da narrativa para ser jogada por aí e acolá pelas outras personagens, e a única coisa que ela faz é encarar com uma expressão vazia e dizer que está triste e quer morrer. Para uma história cujo ponto inteiro é ver como será o desenvolvimento dessa protagonista, ela ser a pior personagem não ajuda. E acima disso, o próprio desenvolvimento do seu trauma é terrível.
Umineko é a minha obra de arte favorita, eu sei como é um desenvolvimento perfeito de uma pessoa que quer morrer após perder tudo. E o que Watatabe faz com isso? Temos cenas dela chorando (que não impactam de forma alguma pois o único traço de personalidade da Hinako é sentir falta dos pais e querer morrer), temos a Miko e Shiori discutindo sobre ela, e aí nos últimos episódios vemos UM POUCO de personalidade vinda da protagonista pois ela está com raiva da sereia, e ela cria um plano de fingir felicidade para que ela possa finalmente morrer.
Caramba, no último episódio e finalmente temos algo interessante, me pergunto como vão desenvolver isso agora?
Não vão, porque o anime só acaba sem nunca mudar o status quo e eu nem sei se sequer vai ter uma segunda temporada.
Então o anime não só é frustrante, mas ele piora a situação me mostrando pela primeira vez algo de interessante e depois acabando sem fazer nada com isso.
Vocês estão entendendo onde eu quero chegar?
Apesar de dizer tudo isso, não quero parecer injusta ou agressiva com esse anime. O problema é que criou-se uma expectativa muito boa do que viria, e eu acabei recebendo 13 episódios de nada, com alguns momentos legais que também resultam em nada. Assistir isso foi sofrível e eu sinceramente só terminei porque não gosto de deixar as coisas pela metade, mas não vejo alguém mais casual tendo paciência para terminar isso aqui. E no fundo eu posso só ser uma pessoa amarga, e tá tudo bem.
Não sei como o mangá é, mas tenho curiosidade de ler para saber se o problema foi realmente a execução do anime e talvez o mangá não passe por isso. Não sei.
De qualquer forma, assistam Hikaru ga Shinda Natsu, vai ser uma experiência melhor.

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Itou Junji é um autor que me traz um certo interesse, acho que por eu amar tanto o gênero do horror e ele ser considerado um dos mestres de horror japonês. No entanto, as únicas coisas que li dele foram Uzumaki - que eu considero perfeito, provavelmente - e uma compilação de histórias, Ma no Kakera (ou Fragments of Horror), que eu considero... ok no mínimo e ótimo no máximo?
Então existe essa certa curiosidade em entender melhor como o Itou desenvolve histórias para além das suas mais famosas, o que me traz nessa antologia, Yami no Koe.
Não restam dúvidas de que a arte desse autor é fenomenal e consegue instigar esse sentimento de terror e nojo em você, mas o que eu quero abordar aqui é sobre como essas histórias são feitas. Yami no Koe começa com três histórias bem fracas sinceramente, que parecem ter um senso de urgência desnecessário em apresentar um conceito interessante mas resolvê-lo o mais rápido possível, o que nunca é algo muito divertido de se ler, principalmente no horror. Claro, são histórias boas, mas ao terminá-las existe um sentimento de insatisfação. "É isso?".
Todavia, isso tudo melhora a partir da quarta história, "Mistério da Casa Mal Assombrada". Aqui, o Itou Junji foca mais numa atmosfera bizarra e em nos guiar por essa narrativa do que realmente explicar alguma coisa ou ser expositivo, o que eu acho que funciona em prol do mangá. Chegou num ponto em que, eu que já sou super acostumada com horror e não tenho muitas reações na maior parte do tempo, esbocei algo quando vi o filho do dono da casa ao virar a página. O que foi muito mais pela situação, a construção que levou até aquele momento do que só "olha esse desenho bizarro". Acho que é aí em que as qualidades do autor brilham.
E isso procede na minha história favorita, o capítulo 5, "Glicerídeo". Não sei se por trazer um elemento para o horror que não seja o padrão de sangue e violência, pois aqui a substância que "dá medo" é óleo. Uma casa infestada de óleo, pessoas infestadas de óleo por dentro e por fora, sonhos oleosos e sentimentos oleosos. Eu não sei se isso foi unicamente do mangá, se eu já estava doente ou se foi uma combinação de ambos, mas ler isso me deixando genuinamente enojada, que é uma reação bem incomum para mim, em qualquer forma de arte. E é claro, as qualidades também brilham aqui, visto que não há uma preocupação de "resolução" ou exposição, e apenas de apresentar personagens, uma ambientação, e ver onde isso vai dar. E eu acho isso incrível.
As últimas duas histórias são igualmente boas, destaque para o final da sétima, "O Chamado do Condenado", que não se preocupa em explicar ou resolver nada, apenas documentar. Minha única ressalva porém é com o final do penúltimo capítulo; decidir explicar o porquê da condição de "earthbound" não é algo ruim, mas eu senti essa urgência novamente, de mostrar como tudo se resolve e como tudo acabou. Eu entendo o porquê de fazer as coisas de tal forma mas, como mencionei acima, acho que essas narrativas brilham quando não se preocupam com tais coisas.
De qualquer forma, é uma coletânea que vale a pena ler, e tenhos boas esperanças para sua continuação.

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Sempre me interessei e gostei de fantasia, porém é um refresco encontrar obras que as tratam de forma quase que "realista". Realista eu digo no sentido de trazer uma lógica interna que funciona para a magia da realidade, um exemplo seria o filme As Above, So Below (2014) que representa o Inferno de forma bem pé no chão. Por isso, ler Witches do Igarashi Daisuke foi uma ótima experiência.
Ele trata a magia e o irreal ainda como algo obscuro, secreto, do qual poucas pessoas possuem acesso, e claro que ainda existem seus momentos exagerados, como o exército dos mortos no final do primeiro conto. Mas no fim a magia se torna apenas a natureza, as leis do universo e mulheres que conseguem enxergar e lidar com isso.
Algumas das histórias aqui são melhores do que outras, mas todas tocam em detalhes interessantíssimos sobre a natureza humana e do planeta, acompanhado das ilustrações magníficas do autor. Minha favorita provavelmente foi Petra Genitalix - acho que não posso negar ser uma fã de ficção científica nessas horas - mas eu tirei algo de todos os segmentos, incluindo os curtos.
Witches, ou melhor, Bruxas, como o nome implica, tem sempre uma ou duas mulheres no foco, com seus conflitos. Uma mulher que quer vingança por uma humilhação do passado, uma garota que só quer enviar uma mensagem. Um quase espírito que só quer proteger o lugar que chama de casa, uma xamã que quer o vender. Uma bruxa experiente que se encontra na situação de salvar o mundo, e sua aprendiz que sacrificaria o mundo por ela. Uma garota perdida e uma mulher que pode ou não ter se aproveitado disso. Esses conflitos e mostragens de personagem permeiam a obra inteira, lhe deixando para julgar e decidir o que pensar sobre, mas deixando claro que a natureza segue suas leis, independente do que humanos pensem. Nicola achou que sabia de tudo, sendo que ela não sabia nem de 1% da verdade do mundo.
Você, que pensa em palavras, não consegue pensar além delas. Não consegue alcançar aquilo que é maior do que você mesma. Mesmo que conseguisse expandir o seu mundo... Ainda assim, não conseguiria aventurar-se no seu interior.
Além de claro, demonstrar a sociedade cristã do momento, com os padres não querendo aceitar a ajuda da bruxa só por ela ser uma bruxa, mesmo que, naquele momento, ela fosse a única pessoa que pudesse ajudá-los.
Witches é uma incrível obra curta e com várias experiências além de nós, meros humanos. Mas, mesmo não atingindo o título de Bruxa, acho que podemos aprender aqui a olhar para a natureza e nós como uma coisa só - e a mensurar o mundo a partir de nossos olhos.
Quando profundos sentimentos afloram, a magia desperta.

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Blank Canvas: My So-Called Artist's Journey foi meu primeiro contato com a Higashimura Akiko. Eu já tinha planos de ler Princess Jellyfish, imagino que sua obra mais famosa, mas acabei caindo de paraquedas em Blank Canvas, uma autobiografia coming of age sobre o processo dessa garota, Hayashi, em começar a desenhar mangá - e muitas outras coisas.
Para além de especialidades técnicas como a ilustração leve desse mangá que combina bastante com seu tom mais suave e quase cômico na maior parte do tempo, mas ainda sustenta os momentos sérios, e a forma que a Higashimura leva essa história quase que não linear entrando em várias tangências de falar sobre a vida dela ou contar como funciona um processo do mundo da arte, mangá e faculdade japonesa dos anos 90, toda essa narrativa funciona especialmente bem em te inserir neste mundo e criar a compreensão de como essas vidas são levadas e afetadas.
Meu primeiro pensamento com essa obra foi um choque de o quão honesta, vulnerável e corajosa a Higashimura estava sendo em escrever certas coisas aqui, coisas que se fosse comigo eu nunca compartilharia com ninguém, mas acho que isso pode ser um charme da parte dela. Entrando no assunto principal do mangá, ele é tanto um pedido de desculpas e arrependimento, como uma homenagem e preservação à memória do Sensei da Hayashi/Higashimura. E mesmo que ela tenha feito isso mais de uma década depois, exige muita força de vontade para revisitar o passado e colocar com palavras tão sinceras o que significou todo esse período da sua vida. Acredito que o mais intensificante nessa jornada foi essa atitude terrível da Hayashi de nunca se comprometer de verdade - pelo menos com coisas que não eram mangá. Cria-se uma frustração muito grande pela protagonista, mas isso só parte por uma visão de fora de leitora que pode observar atentamente e julgar todos os passos dessa personagem. Na realidade eu me vejo agindo exatamente como ela, tanto no não compromisso com objetivos, como na insinceridade, não de uma forma de contar mentiras, mas de não ter coragem de ser honesta com seus sentimentos.
Hayashi teve diversas oportunidades de falar com o Sensei, sobre seu desejo de fazer mangás, sobre seus problemas, sobre o fato de não querer morar em Miyazaki, de não querer pintar mais. Mas ela nunca fez isso. "O mundo do Sensei apenas existia em preto e branco. Para ele, minha resposta cinza claro era branco puro." Mas é interessante como, apesar de todas essas dificuldades, Hayashi ainda se via "obedecendo" ao Sensei, trabalhando com ele, ensinando crianças, desenhando. É uma situação complexa de uma adolescente/jovem-adulta que quer conquistar seu próprio caminho o mais rápido possível, sem verdadeiramente se importar com os outros, mas ao mesmo tempo ela se importa, e muito, com seu Sensei. E eu acho que é aí onde Blank Canvas brilha pois, mesmo sendo uma ficção no sentido mais geral da palavra, é baseado no real, em pessoas que existem e existiram e passaram por cenas semelhantes às que lemos aqui. Por isso essa complexidade contraditória faz sentido aqui, e por isso é mais frustrante ainda quando vemos a Hayashi tomando decisões erradas ou fugindo por não saber o que fazer numa situação ou como lidar com ela.
O final desse mangá é um soco no estômago que, mesmo já sabendo que ele viria, não diminuiu em nada seu impacto. A filosofia do Sensei, que foi algo que permaneceu na personagem e na autora, é algo que eu também carrego para minha vida, mesmo que de forma diferente. Não existe "inspiração", não existe "espera". Você apenas precisa desenhar, desenhar e desenhar. Artistas nascem criando e morrerão criando, pois não há nada mais que possam fazer além disso.
Eu moro do outro lado do mundo do Sensei, e ele faleceu quando eu nem tinha consciência ainda, mas só de ter visto a sua representação criada pela Higashimura Akiko, eu sinto que ele deve ter sido uma pessoa maravilhosa e incrível, e gostaria de ter visto suas artes com meus próprios olhos. Que seus últimos momentos tenham sido em paz, e, mesmo já tendo se passado anos, espero que a autora esteja em paz consigo mesma também. Não existe ninguém que possa definir um "perdão" porém, ter criado esse mangá deixou a memória de Hidaka Kenzou viva para várias e várias pessoas, inspiradas por seus ensinamentos e pensamentos.
"Desenhe. Apenas Desenhe."

Sempre me interessei por histórias de “magical sex shift”. Acho que elas possuem muito potencial para discussões de gênero e sexualidade, mesmo que muitas vão mais para o lado de piadas e ecchi slice-of-life. No caso de Balance Policy, ele realmente tenta trazer um drama e um peso aqui, mesmo talvez sendo curto demais para manter esse objetivo.
Nesse manga acho que estaria mais para “science fiction sex shift”, em que estamos numa realidade com uma taxa de natalidade baixíssima, com menos mulheres do que deveria e aparentemente a humanidade vai entrar em extinção. O governo então cria o programa que dá nome ao manga, para transformar garotos adolescentes em garotas. Nosso protagonista, Kenji, acabou de voltar após um ano nos cuidados médicos para que seu corpo ficasse “estável” após o procedimento.
A narrativa te joga na visão desses personagens e no significado que tal programa teria para as pessoas do dia a dia. Aquele garoto que era seu vizinho do nada sumiu e reapareceu 1 ano depois como uma garota. Porém, isso não é por reafirmação pessoal, e sim por um propósito claro: reprodução. Esses garotos estão com a responsabilidade de saírem no mundo e terem bebês, e o governo vai dar muito dinheiro para apoiar as famílias que participarem. Existem MUITAS questões que podem ser tiradas e desenvolvidas a partir disso, mas o manga tenta fazer algo mais simples apenas com as amizades e vida de Kenji: seu melhor amigo que não sabe mais o que pensar (e claro, a excitação sexual do início da puberdade), sua melhor amiga que amava o Kenji homem e agora não sabe o que fazer, a irmã do melhor amigo misteriosa e os próprios pais de Kenji.
Seu pai de início parece ser alguém que não se importa com Kenji, e apenas a fez participar do programa para receber a compensação do governo. Mas eu não acho que isso seja completamente verdade. Na cena dos fogos de artifício, ele parece claramente se importar com o filho, ou filha.
Com o melhor amigo, Masaomi, existe o esperado de questões sexuais mas é interessante como grande parte das suas interações se tratam dessa busca de reconhecimento de Kenji por ser enxergado como um garoto e Masaomi, que sabe que aquele é seu amigo e quer enxergar ele ali mas não consegue o ver de forma diferente após o procedimento. Eu acredito que a forma que o manga decidiu terminar, com Kenji iniciando de verdade seu processo pra vida adulta ao menstruar e tendo que ir embora, ótimo. A sua conversa com Masaomi mostra essa perda de identidade que ocorreu nele, de não saber quem é mais. E a resposta de Masaomi de que ela é simplesmente Kenji, não importa se for uma garota ou um garoto. Por mais que tivesse espaço para muito mais desenvolvimento, acho um final interessante.
Ah pera… tem mais dois capítulos? Quê?
Eu não sei o que eu penso sobre os últimos capítulos.
É de certa forma “necessário” pois a personagem da Sakura foi apresentada do início e não apareceu novamente. E eu gosto da cena final, mostrando o quanto de crianças existem no mundo agora.
Mas… o que foi essa cena de Kenji conversando com o Masaomi de 30 anos? De início eu pensei que era só uma “visão” ou pensamento para remeter ao início da obra, e aí acabaria assim. Mas na verdade só continuou e teve tudo aquilo da cirurgia de coração e…? Eu não sei, talvez com mais capítulos isso pudesse ter sido abordado de forma melhor?
De qualquer forma, achei um bom mangá até o capítulo 13. O final toma umas decisões que eu acho estranhas mas ele não é de todo ruim. Mesmo sendo uma história curta, ela é interessante.

Spoilers a seguir.
Já comentei um pouco sobre o fato do Tatsuki Fujimoto ser o meu mangaka favorito na minha review de Look Back do ano passado, então vamos direto para o filme nessa review.
Antes de tudo, existe o elefante na sala sobre a mudança de estilo da primeira temporada do anime para o filme, e eu só queria dar os meus 2 centavos de que sempre amei a escolha de tornar o anime mais cinematográfico (o que não significa que ele não foi colorido e brilhante) e o seu uso de CGI. Agora, eu não vou mentir que pessoalmente prefiro o estilo mais estilizado, com menos sombreamento para uma animação mais fluída que foi escolhido para esse filme, uma mudança que também ocorreu da primeira para a segunda temporada de Jujutsu Kaisen.
Dito isso, o que falar sobre esse filme?
Tenho um carinho enorme pelo manga de Chainsaw Man ao ponto de ser uma das poucas coisas que eu acompanho semanalmente nos últimos anos e, na minha primeira lida, mesmo já gostando, foi no arco da Reze que me apaixonei - especificamente na cena que o Denji monta no Beam. E tudo nesse arco é perfeito.
O encontro no cinema, o dilema do Denji entre a Makima e Reze (adorei que animaram a introdução de capítulo do Denji as imaginando de lingerie), Aki e Anjo, Reze metendo o terror, absolutamente tudo sobre a Reze em si e a presença da Makima em todo o filme, mesmo em cenas que ela não está fisicamente.
E eu sei que não preciso dizer o quão bom em questão técnica esse filme é, mas não posso deixar de comentar isso. Além do óbvio da animação ser a coisa mais incrível que eu já vi e a trilha sonora do Kensuke Ushio estar insana, eu amei como o manga foi adaptado, no próprio storyboard do filme. Eles estão sempre recriando os painéis icônicos do manga, mas existe um charme nos detalhes do filme, como a Power entrando em foco ao ficar assustada com a Makima, o Denji reagindo à roupa dela no encontro e a melhor cena de todas: a piscina. Que ódio, a cena da piscina já era uma das minhas coisas favoritas, mas aqui ela entrou em outro nível com a música e a animação. E eu amei que não tiveram medo de colocar a Reze genuinamente pelada (mesmo que ela esteja sem mamilos).
Sobre as sequências depois da revelação da Reze… meu Deus.
Uma coisa especial que eu queria comentar era, dos 12 encerramentos do anime, o único que nunca teve uma versão completa lançada foi o terceiro, da banda MAXIMUM THE HORMONE. Simplesmente ele começa a tocar na cena que o Denji reflete sobre as mulheres da sua vida e seu coração e, posso estar enganada, mas tenho quase certeza que a música tocou por mais de 1min29s e que ouvi coisas novas. Não sei se foi planejado desde 2022 soltar a versão completa com o filme ou se decidiram gravá-la agora, mas de qualquer forma eu amo essa música e ela só elevou a cena. Outro destaque foi o Denji e Beam derrotando o Demônio do Tufão.
Entrando mais um pouco na trilha, eu com certeza vou analisá-la melhor pelos próximos dias, mas adorei o efeito do motif do piano tocando em todas as cenas com a Reze. E a música mais maluca nas cenas de tensão e batalha são incríveis (já comentei da cena do Denji imaginando as garotas de lingerie, mas ela é especialmente boa por ficar intercalando isso com a Reze sendo atacada).
Eu poderia passar dias aqui passando por cada mínimo detalhe do filme e como eu acho ele maneiro, mas acho que já consegui resumir bastante meus sentimentos por agora. Já cansei de achar sinônimos para “amo” e, dito isso, amo muito Chainsaw Man e essa história e esse filme enche meu coração, principalmente por ter a oportunidade de vê-lo numa tela grande.
Para finalizar, a abertura é absolutamente INCRÍVEL e, talvez depois da cena da piscina, a cena da Reze cantando seja minha favorita.
Eu não sei como foi o processo de produção desse filme (por demorar um pouco, eu espero que não tenha sido horrível), mas pode demorar a vontade para terceira temporada, MAPPA. Eu esperarei.
“Eu também prefiro o rato-do-campo”.

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Tatsuki Fujimoto é provavelmente o meu mangaká favorito por diversos motivos, mas acho que o motivo do qual eu quero focar aqui é que eu me vejo nele em várias facetas. Isso não é de modo literal, até porque eu não o conheço e nunca vou, mas a minha forma principal de me envolver com outras pessoas sempre foi por meio da arte, não só a arte que o Fujimoto faz, mas também o gosto dele e o modo que ele interage com ela.
No hiato após a parte 1 de Chainsaw Man, Fujimoto lançou duas one-shots: Look Back e Sayonara Eri, duas histórias pessoais sobre a relação das pessoas com arte. Confesso que eu sou completamente apaixonada por Sayonara Eri, e talvez isso tenha acabado ofuscando Look Back na minha concepção, mas eu aproveitei esse filme e o fato de todo mundo estar amando ele (o Kojima viu esse filme quantas vezes? 11?) para poder experienciar isso aqui novamente, já que faz uns 2 anos desde que li a one-shot.
E foi uma experiência tão destrutiva quanto eu imaginei. Eu vi várias pessoas no twitter que, após o filme, decidiram que iam voltar a desenhar ou fazer qualquer tipo de arte, decidiram que iam voltar a viver a vida. E o filme é exatamente isso.
Eu não sei se todas as pessoas se sentem assim, mas ler (e agora assistir) Look Back é como experienciar o fundo da sua alma canalizado por essas personagens. O fato delas se chamarem Fujino e Kyomoto (Fujimoto) é algo legal, mas acho que também é para exemplificar como a faceta de "ser artista" está dividido entre elas. Pelo menos eu me vejo muito nas duas.
A Fujino desenha porque ela era boa nisso. Quando ela vê alguém melhor que ela, esses sentimentos confusos a fazem querer ser melhor.
A Kyomoto é uma hikikomori. Ela tem medo das pessoas e não consegue nem comprar algo no mercadinho. A única coisa que ela tem são os seus desenhos, inspirados por quem fez ela começar a desenhar, Fujino.
Quando a Fujino percebeu que não valia mais a pena tentar ser melhor do que a Kyomoto, ela desistiu. Ela passou a "Viver a Vida Normal".
Até o dia que elas se conheceram.
Fujino voltou a desenhar. Desenhar pela Kyomoto, talvez? Ou por que alguém elogiou ela de novo, e justamente a pessoa pela qual ela estava tentando ultrapassar? Ou os dois.
Mas o que importa é isso: ela voltou a desenhar.
E as duas passaram anos desenhando, juntas.
Até, é claro, a mudança, já que nada pode permanecer o mesmo para sempre. Kyomoto não quer depender de Fujino para tudo. Kyomoto quer melhorar ainda mais seu desenho. Elas querem coisas diferentes.
Essa cena dói, mas talvez seja uma das minhas favoritas. A Fujino está sendo uma completa babaca e eu amo isso.
E então, a tragédia. A negação, a culpa, os pensamentos de "e se eu tivesse feito diferente?"
Mas pensar e pensar não muda nada. Pois a vida é assim, e não temos controle sob o que não temos controle.
O que eu amo sobre esse final é sobre essa "escolha" implícita apresentada à Fujino após a morte da Kyomoto.
Ela vai deixar de desenhar, tal como fez no 6° ano, ou ela vai continuar?
"Fujino, por que você desenha?"
E essa pergunta não ser respondida com palavras, mas sim cenas da Fujino desenhando. Desenhando com a Kyomoto. Desenhando sozinha. Desenhando, faça chuva, faça sol, independemente do que estiver acontecendo, desenhando.
Por que os humanos fazem arte?
Por que se abdicar de todas as outras coisas, por uma coisa que talvez você nem goste realmente de fazer?
Por quê?
Por que a resposta é sempre a arte?
E então, Fujino olha para trás, para o casaco da Kyomoto que ela havia assinado anos antes.
E ela sai do quarto e continua a desenhar seu mangá.
Por que o que mais ela vai fazer, além de desenhar?